terça-feira, 9 de agosto de 2016

Poderosa

Hello!

Primeiramente, mil desculpas por não ter postado ontem. Fiquei tão ocupada com um monte de coisas que tinha pra fazer que só me dei conta do vacilo hoje de manhã. Mas vamos fingir que nada aconteceu e resenhar hoje mesmo como se estivesse tudo normal.

Faz a egípcia.


E a resenha de hoje não é só maravilhosa, mas poderosíssima. Com vocês, Poderosa - Diário de Uma Garota que Tinha o Mundo na Mão


O pai e a mãe estão se separando, o irmão caçula é o garoto mais implicante do planeta e a avó passa os dias na cama, descascando a parede com as unhas, sem saber o que acontece ao redor. É este o habitat de Joana Dalva, que aos 13 anos sonha em ser escritora. Tudo o que ela desejava era criar histórias que distraíssem os futuros leitores, mas um dia faz uma redação sobre a quase xará Joana s'Arc e provoca uma reviravolta da História. Se uma simples redação podia mudar o passado, por que não usar a literatura para consertar o presente? Joana Dalva não hesita em converter a ficção em realidade. O problema é que cada texto produz conseqüências imprevistas, dando origem a outros problemas. E o jogo de gato e rato acaba escapando do controle. Para participar desse jogo, não é preciso ter a idade de Joana Dalva nem sentir na pele os conflitos e as espinhas da adolescência. Este romance de Sérgio Klein destina-se a todos os que ainda acreditam no poder transformador das palavras.


Autor: Sergio Klein
Ano: 2006

Páginas: 194

Editora: Fundamento

Já falamos antes sobre o Sergio Klein aqui e vocês sabem como eu sou praticamente devota à ele. Não sabia? Então clica aqui e fica por dentro.

"Ao saber que estava grávida de uma menina, minha mãe decidiu me dar o nome da santa. Meu pai não gostou da ideia: fazia questão de que a primeira filha se chamasse Dalva, como a mãe dele, que tinha morrido recentemente e merecia uma homenagem. Depois de muita discussão e palpites da família inteira, meus pais fizeram um pacto esdrúxulo e me batizaram com esta obra prima: Joana Dalva! Mas foi apenas uma trégua. Minha mãe não se entendia com a sogra e só me chama de Joana, enquanto meu pai, por pura birra, insiste em me tratar por Dalvinha."

Joana Dalva é uma garota de 13 anos que sonha em um dia ser escritora. Sua vida é praticamente igual a de muitos de nós. Ela acorda cedo, vai até a escola onde enfrenta uma bela rodada de aulas chatas e outras que nem tanto, conversa com a amiga que ainda não saiu da infância e paquera o crush mais desejado. Quando não está escrevendo ou viajando no mundo da lua, ela se esquiva das investidas nada amigáveis da menina "nojentinha" da sala.

"A possibilidade de que o meu texto fosse lido por dezenas de alunos, talvez centenas, disparou o coração inédito desta futura escritora. Armei um sorriso de falsa modéstia pra agradecer a proposta e acabei ganhando uma salva de palmas puxadas pelo professor."

Irmã mais velha, ela possui a sina de aturar o irmão mais novo, falhando miseravelmente. Só param de trocar patadas quando estão dormindo ou em cômodos diferentes. A mãe é professora de história numa universidade, o pai, dentista. Mas os dois andam brigando mais que as crianças, o que acaba resultando num divórcio.

Mas como toda brasileira, Joana encara tudo isso com muita garra e muito bom humor. Ela não é adepta do movimento zen, mas nem por isso se mete em confusões e brigas. Claro, se ela puder evitar. 

Tudo muda no dia em que ela descobre ser possuidora de um poder que pode mudar o mundo: tudo que ela escreve com a mão esquerda - esqueci de dizer que ela é canhota? Agora você sabe - vira realidade.

"Salete beijou minha mão e afirmou que eu possuía o dom de fazer tudo! As linhas e entrelinhas do meu destino não conheciam limites. Usando a imaginação, eu seria capaz de realizar qualquer coisa. "


Joana então começa a usar o seu poder, de forma modesta. Mas quem disse que isso a livraria de encrencas? Pelo contrário, quanto mais ela usa mais confusões se formam, o que faz com que ela use o poder novamente. Um ciclo vicioso e delicioso que não termina.

Eu li esse livro quando era ainda mais nova que a Joana, e me identifiquei na hora. Não só pelo ambiente parecido e pelos personagens que devem ter passado pela infância de todo mundo. Joana, além de ter o mesmo sonho que eu, tinha as minhas atitudes. Tudo que ela fazia, eu conseguia me vê fazendo.
"Percebi que não adiantava bancar a boa menina e explicar que era urgente. Pra falar com a Salete, eu precisava simular uma 
tragédia. Com a minha melhor máscara de adolescente em crise, finquei os cotovelos no balcão e falei, com um sorriso manso: 'Cortar o cabelo? Não, obrigada. Tô pensando em cortar os pulsos'."

Com uma narrativa em primeira pessoa, o livro é leve e humoristico. Os desvaneios de Joana são inusitados e nos prendem. É cada pensamento. Cada figura que aparece. Todas as vezes que li, nunca consegui parar até acabar.

Joana, embora jovem, tem muita maturidade. Mesmo assim, também tem seu lado mais infantil com preocupações meio bobas e infantis.

"Paulo se irritou com a gritaria e resolveu formar as equipes sem pedir a opinião de ninguém. Leninha e eu ficamos juntas, mas tivemos de suportar a companhia desprezível da Danyelle. Na hora me deu vontade de levantar a mão, subir na carteira e lembrar que vivemos num país livre, portanto não podia concordar com aquela imposição arbitrária e, em nome da democracia, reivindicava o sagrado direito de escolher o meu grupo."

Além de ter esse incrível poder, Joana Dalva é gente como a gente. Mesmo quando está perto de fazer uma prova de história, tudo em que ela consegue pensar é no boy e no quanto o sorriso dele é bonito. Mas quem disse que o boy dá bola. Atah. Se crush desse bola, a gente não ia querer, não é mesmo?

Sonhadora, divertida, amiga, confidente e solicita. É tanto elogio pra essa menina que sem or!

"Não posso ver ninguém chorando que me dá vontade de formar uma dupla sertaneja. Pra consolar a Salete, eu disse o que sempre se diz quando não se tem nada pra dizer: 'Se eu puder fazer alguma coisa...'."

Se você regula de idade com Joana, sugiro que leia. A identificação é imediata.
Se você é mais velha,também sugiro que leia. É tão bom relembrar e reviver a nossa infância.

Ah, eu disse que esse livro foi indicado ao Prêmio Jabuti? Não? Pois foi. 

 "Graham Bell pode ter sido um gênio, mas o que ele inventou foi uma droga. E não estou falando em sentido figurado, não. Droga mesmo, como maconha ou cocaína. A voz do outro lado traz alívio e deixa a gente anestesiada, com uma sensação de bem-estar que acaba causando dependência. Logo depois de desligar, vem a famosa síndrome de abstinência, a incontrolável fissura pra ligar outra vez e falar até a orelha ficar vermelha e inchada como a do Xandi."

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